quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Despertador

Para mim e o Miguel, meu irmão, a fazenda era o paraíso. Íamos para lá nas férias de verão e também das de inverno. Na época, final dos anos 50 e início dos 60, não era fácil chegar. A atual BR 116, na época Rio-Bahia, não tinha asfalto na maior parte. A viagem levava dois dias, sem possibilidade de se prever a chegada. Mal tempo, pneu furado, carro fervendo, eram as ocorrências aleatórias que nos atrasavam. Saindo do Rio cedo, dormíamos em Muriaé, Realeza, ou Abre Campo. Na época de chuvas, no verão, a partir de Abre Campo, a atual BR 362, que na época era uma estradinha de interior, ficava um atoleiro só. Vovô mandava um carro de boi para nos esperar por lá. A última fase da viagem levava quase um dia inteiro, deitados nos colchões de palha que forravam o carro.
Todos estes perrengues não nos desanimavam. Talvez fizessem parte do fascínio que contagiava os meninos da Tijuca – eu e meu irmão – nas viagens pelo interior da terra de nossos pais, e na expectativa de encontrar com nossos primos.

Na noite que precedia a viagem eu não conseguia dormir de tão excitado. Uma vez, de madrugada, vendo que o tempo não passava no relógio na cabeceira da cama de meus pais, resolvi antecipar o horário marcado para eles acordarem. De 7:00 passei o alarme para 6:45 hs. Voltei para cama, sem conseguir dormir, e retornei ao despertador, na ponta dos pés, marcando 6:30 hs. E assim, de pouquinho em pouquinho, nem imagino que horário o despertador tocou. Pela fúria do meu pai, só sei que foi muito cedo.

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