segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O menino roubado e a curandeira - contribuição da Tia Ceição, via Flávia

O menino roubado era o marido de Sá Peninha e, portanto, pai da vovó Cotinha. O nome dele era Antônio Pinto Coelho da Cunha, conhecido como Antonico Boticário.
O pai dele era português e trabalhava como caixeiro viajante. Ele engravidou a filha de um fazendeiro da região de Ubá. Como a filha do fazendeiro não quis acompanhá-lo, ele (o português) voltou e roubou o menino.
Parece que a mãe foi a cavalo atrás do menino, mas ficou meio perturbada com o roubo da criança.
O pai de Antonico Boticário o levou para o Rio de Janeiro e nomeou um tio (irmão do pai) para ser o tutor dele. Antonico começou a estudar medicina no RJ. Entretanto, o tio roubou todos os recursos do sobrinho e fugiu para Portugal.
O rapaz não pôde concluir o curso médico, mas como já tinha cursado alguns anos, recebeu o diploma de farmacêutico. Na época, isso era possível. Daí o nome de Antonico Boticário.
Antonico Boticário morreu quando os filhos de Sá Peninha eram crianças. Seus filhos foram: José Pinto Coelho da Cunha, Maria da Conceição Pena da Cunha (vovó Cotinha) e Maria Auxiliadora Pena da Cunha (Mariquita).
Sá Peninha aprendeu muito do ofício do marido e sabia muitos tratamentos. Recebia muitas pessoas na fazenda, que vinham para se tratar com ela. Tinha um canteiro de plantas medicinais.
Ela parou de atuar  nesse ofício porque o vovô Nico, seu genro, não gostava e disse que ela ficaria conhecida como curandeira.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Usina Jatiboca

O neto mais velho do vovô acho que era o Zé de Alencar, irmão da Matil e filho da Tia Cristina e do tio Alencar.
O Zé de Alencar tinha fama de maluco. Era, pelo que me contaram, uma espécie de Unabomber, que se dedicava a explodir as privadas dos banheiros dos infelizes colégios que o aceitavam como aluno interno.
Quando não se ocupava em estourar latrinas, usava talentos insuspeitados de eletricista. Uma de suas “obras” era puxar a eletricidade de seu quarto para um fio e deixa-lo de prontidão. Quando o chefe de disciplina ia ao seu quarto, certamente para uma bronca, ele encostava o fio na maçaneta de metal. Um dia um padre do colégio ficou grudado bom tempo na maçaneta sendo eletrocutado.
Por causa destes procedimentos, não era muito bem-vindo nos colégios do Rio e parece que teve que ir para Minas, tocar terror. Provavelmente hoje seria confundido com um terrorista árabe.
Quem lê estas estórias, que não sei até onde são verdades, vai achar que o Zé era uma pessoa agressiva, “revoltosa” (como se diz no interior). Mas ele era um doce de pessoa. Houve época em que esteve internado no Colégio Batista do Rio de Janeiro, na Tijuca, perto de onde morávamos. Muitos domingos ele ia lá para casa e nunca esquecia de levar um pacote de balas para Magaly, que era pequena.
Uma vez fomos, Miguel, ele e eu, a um cinema perto da Praça Saez Peña. Era um filme de bang-bang, super agitado, com tiros, lutas, guerras de índios e cowboys, etc. Miguel e eu estávamos concentrados no filme quando olhamos para o primo ao nosso lado: ele estava dormindo profundamente, apesar de todo tiroteio. Motivo de muitas risadas entre nós.
Muito anos depois ele apareceu com um amigo de carro na fazenda. Eu já era adolescente. Era amigo da Dodora, irmã da Anabela. Dodora, que morava em BH, começou a circular conosco pelo interior de Rio Casca e Ponte Nova, querendo comprar antiguidades. Eu, de olho na Anabela, ia junto. Creio que Afonso e Elisa iam também às vezes. O carro era grande, não havia estas leis de trânsito com exigência de cintos de segurança. Creio que muitas vezes éramos uns 8 no carro.
Um dos roteiros nos levou à Usina Jatiboca, em Ponte Nova, que pertenceria à parte rica da família, segundo informaram. Uma senhora, muito distinta, nos recebeu e nos serviu o inevitável cafezinho passado na hora. E servido em xícaras que pareciam importadas, tais as filigranas que tinham. Coisa muito fina!
Creio que todos ficamos nervosos com tanta “finesse”, mas o Afonso mais que todos: quando recebeu a xícara a mão tremeu e lá foi ela ser despedaçada no chão. O Afonso não precisa muito esforço para ficar vermelho, e se houvesse um buraco teria se metido nele. Ficamos todos muito constrangidos na hora, mas quando no carro, já mais distante da Jatiboca, as gargalhadas duraram até chegarmos perto de Rio Casca.


Sá Peninha - contribuição do Afonso e da Magaly

Recordo- me bem da Sapeninha ( ou Sá Peninha). Era uma velhinha de 82 anos muito curvada e de cabelos brancos.
Ela tinha um irmão de leite, um velhinho de cabelos e barba branca como algodão que a visitava constantemente. Como vcs sabem, irmão de leite era filho de uma escrava que amamentava e cuidava do filho da mesma idade do seu proprietário. O irmão de leite era considerado um tipo de irmão e tratado como tal.
Sá Peninha sentava na escadaria da casa da fazenda com ele e lá ficavam conversando sobre as pessoas que eles conheciam. Eu apenas os observava com curiosidade de criança. Quando ele partia, ele sempre levava consigo uma sacola de alimento que Sá Peninha preparava para ele. Recordo-me de vê-lo partir pela estrada meio encurvado e apoiado no bastão.
Mesmo criança eu ficava impressionado como um velhinho como ele podia fazer aquele trajeto longo pela estrada com o fim de visitar a minha bisavó. Este velhinho morreu tragicamente atropelado quando caminhava pela estrada de ferro de Rio Casca.
Sá Peninha teve 3 filhos: a nossa avó, Maricota, Mariquita e o mais jovem de todo, um  rapaz problemático e muito mimado. Ele vivia as turras com a mãe e numa delas o irmão de Sá Peninha interveio e o rapaz atirou no tio.
Em função deste incidente, o  tio perdeu a perna e o rapaz fugiu para bem longe. Sá Peninha nunca mais o viu e chorava sempre quando alguém mencionava o seu nome. Este rapaz morreu muito tempo depois de uma febre que abateu sobre a região.(Afonso)

Papai tinha verdadeira paixão por Sá Peninha. Dizia que era boníssima e muito querida.  Mas ele tinha pavor da Dindinha Antônia.
Contava que quando esta morreu ele tinha queimado a mão num ferro de marcar cavalo e alguém “apertou” a mão dele no velório. Ele começou a chorar desesperado de dor e todos achavam que era pela perda da avó... (Magaly)

Tenho um certo remorso relacionado à Sá Peninha. Ela já bem velhinha ficava todo dia no quarto do corredor que levava à cozinha ao lado do famoso relógio. Depois que ela morreu, passei a ocupar este quarto com o Miguel. Mas não é esta a razão do remorso.
É que quando passava pelo corredor ela sempre chamava, mandava entrar e perguntava meu nome, de quem era filho, e ia por aí. Se passasse 3 vezes, eram as mesmas perguntas.
Por isto, passei a andar por ali em silêncio, e disparava na correria antes que fosse chamado. Quando meu pai comentou que foi a pessoa mais bondosa que conheceu, comecei a achar que deveria ter sido mais atencioso. Que a pobre velhinha queria apenas companhia.

As conversas na varanda - contribuição do Emerson

Gostava de ficar escutando os causos entre meu pai e o tio Zé, naquela varanda próxima do corredor na fazenda dos Alpes. Da mesma forma as conversas entre meu pai e o tio Doni, na varanda do sitio da tia Ceição.
Entre um cigarro e outro as falas iam longe. Não faltava assunto. Eu era um bom ouvinte.
Mas ia conhecendo a historia ds família. O tempo passa mas as lembraças daquela fazenda nunca passa.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Primos

A maior parte das estórias que conto tiveram participação do Miguel, meu irmão e companheiro permanente de aventuras e desventuras, por razões evidentes: morávamos juntos e compartilhávamos as longas viagens para a fazenda. Magaly tem grande diferença de idade para nós: 9 anos e 6 anos em relação a mim e ao Miguel, respectivamente. Desta forma, era aquela bonequinha que ia no colo da mamãe, ou aos cuidados do papai. Para nós, na época, era a irmãzinha bonitinha e mimosa, que devíamos cuidar, o que incluía deixar de fora de nossas andanças pela fazenda.
Os primos mais próximos eram os filhos da tia Ofélia, que passavam as férias com ela: José Renato, Afonso e Elisa. O Zé Renato gostava muito de dormir, e quando nos acompanhava era nas programações mais noturnas como os teatrinhos e as disputas de galo de guerra da cozinha. A Elisa era menina e nem sempre se dispunha a participar das confusões dos meninos.
Os demais primos apareceriam às vezes. José de Alencar e Matil muito pouco, pois moravam no Rio, como Miguel e eu, mas seus pais, tio Alencar e tia Cristina, não frequentavam muito a fazenda. O Sérgio e o Marcos às vezes apareciam, mas se dividiam entre as casas do tio Doni e tia Conceição, e a as casas de seus parentes por parte de mãe, tia Olenka, a quem não conheci, os Miranda Chaves. Encontrava-os mais na cidade, nas poucas vezes que me interessei em chegar por lá, na época.
Cássio e Gláucia moravam na fazenda da Ponte Queimada e apareciam às vezes nos Alpes, ou nós os visitámos com nossos pais.
Os mais novos – bem, eram os mais novos, e para nós, pré-adolescentes, despertavam interesse abaixo das vacas, cachorros e porcos, nas nossas escalas de prioridades. Lânia, Emerson, Valéria, Vania eram da turma “invisível” – para nós - da Magaly. 
Carla Márcia e Sandra vieram muito depois, quando já era adolescente ou talvez até casado. Épocas que vovó e vovô já haviam partido, e que a fazenda havia perdido parte de seu encanto, e que o que mais me interessava era estar na cidade.
Sendo assim, havia uma trinca mais presente nos eventos que descrevo: Afonso, Miguel e Eu.


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Baiano

Um dos cavalos que era destinado aos meninos era o Baiano. Provavelmente por que mancava um pouco de uma das patas traseiras, e também por ser muito manso. 
Não eram tantos os cavalos disponíveis para nós. Sendo assim, geralmente íamos de 2 em cada um: um na sela, outro na garupa.
Ao chegarmos ansiosos para nos soltarmos na fazenda no início das férias, Miguel e eu demos um jeito de escapar, após cumprimentar os parentes, e pegamos o Baiano no pasto. Encilhamos, Miguel na sela e eu na garupa, e toca a galopar com ele pela estrada. Pra quê? Pra nada!

Um buraco traiçoeiro, conjugado com o defeito da pata do animal, resultou em um tombo de cinema: Baiano para um lado, Miguel para outro, eu para atrás. Levantamos, avaliamos se havia algum estrago, demos risadas ao ver que nada havia acontecido com os três, além de pequenas contusões. Sacudimos a poeira, montamos e prosseguimos. Agora com menos sede ao pote. 

Playground

Nós, meninos de cidade que viravam meninos de fazenda durante as férias, tínhamos a disposição uma verdadeira Disneylândia na roça.
De manhã cedo era hora de ver a lida com as vacas de leite. Ao passarmos na cozinha bem cedo, enchíamos uma caneca de cerca de meio litro com café até a borda e nos dirigíamos ao curral. Ali nos esperava o Bastião, filho do Chico Carreiro, que se encarregava da ordenha. Esvaziávamos cerca de 2 dedos de café na xícara do Bastião e enchíamos com leite tirado diretamente das tetas das vacas.
Quem só bebe leite pasteurizado não imagina que o leite varia com cada vaca e que existem algumas que produzem leite mais gostoso que outras. Creio que geralmente eram as que produziam leite com maior teor de gordura, pois algumas vacas com cruza Jersey eram nossas preferidas. Também não dava para beber leite de vaca recém parida, pois tinha sangue, ficava meio rosado.
Selecionávamos as vacas com leite mais gostoso e bebíamos inicialmente um café com leite quase preto, espumante, grosso, até a metade da caneca, para encher outra vez de leite. O café com leite ia sendo branqueado até que na última caneca havia praticamente apenas leite. Acredito que a cada manhã tomávamos quase dois litros de leite.
Aquele leite gordo, para quem não estava acostumado, causava alguma diarreia nos primeiros dias, mas depois o organismo se acostumava.
Após as vacas serem ordenhadas pelo Bastião o leite passava na desnatadeira, sendo o creme separado. Ele ia para nossa avó fazer manteiga e queijo. O soro, que hoje é vendido nas academias como “whey protein”, era destinado à alimentação dos porcos! Que, por sinal, engordavam rapidamente!
Eles ficavam presos no chiqueiro. Havia um portão que separava os porcos do ambiente onde estavam os cochos, uma fila comprida deles. O Bastião jogava um farelo de milho e de outras coisas, e entornava o soro no cocho. Nós fazíamos a mistura com ele, muitas vezes com os pés descalços.
A melhor hora era quando os porcos, já agitadíssimos com a expectativa de alimentação, fazendo uma grande barulhada, eram soltos. Vinham com tanta fome que tínhamos de nos afastar para não sermos atropelados.
A partir daí a diversão era dar pontapé nos mais gordos, ou mais desesperados para comer. Maldade de meninos. Como geralmente estávamos descalços, não os machucávamos. E nenhum, nunca, se virou para enfrentar o menino chato que ficava lhe dando pontapé.
Ao andar com pés descalços no chiqueiro, era inevitável que todos pegássemos bicho-de-pé. Era uma coceira gostosa no início, mas a retirada, com agulha e álcool, nem sempre era coisa muito agradável.
Divertido também era dia de dar banho nas vacas. Elas entravam em um brete que terminava no banheiro com carrapaticida. Era com grande estardalhaço que se jogavam na água, para nossa diversão. Nós ficávamos em volta, tocando elas, na base de pauladas, que suponho também não as machucavam. Nunca nenhuma delas reclamou.
Um grande escorregador existia no terreiro onde o café ficava para secar: íamos até o topo, sentávamos no tapete formado pelos grãos que secavam, e era só empurrar o corpo para frente, que a gravidade fazia seu papel.
Depois do almoço íamos para o curral de bezerros novos. Eles haviam nascido recentemente e ficavam separados dos demais. Muitos ainda andavam com dificuldade. Ideal para serem amansados.
Cada um de nós tinha o “seu” bezerro. E passávamos horas fazendo carinho. Com o tempo, estavam acostumados conosco, e não mais fugiam ao nosso contato. Alguns até brincavam conosco como eles fazem entre si: dando cabeçadas, em lutas fingidas, que eram grande atração para nós.
Uma das bezerras que amansei era filha de uma vaca registrada, pura, da raça Gir. Chamava-se Sombrinha. Quando cresceu manteve-se muito mansa, facilitando a lida. Inclusive, era possível se montar nela, como se fosse uma égua.



quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Imundos

Cássio e Miguel (o Miguelzinho para os primos) eram muito amigos. Em uma temporada ficaram na Ponte Queimada e iam à noite para a cidade, a cavalo. 
Consta que fizeram aposta para ver quem demorava mais tempo para tomar banho. Pelo menos as calças, ficaram um bom tempo vendo água apenas de chuva.
Por esta época o Miguel se tomou de amores pela Helena, que apareceu em Rio Casca, parece que vindo de férias, de Niterói, onde morava. Nem sei se deu namoro, mas uma paquera, sem a pegação atual.
Nós morávamos em Salvador, onde o pai comandava a base aérea. Passada as férias, um dia chega uma carta da Helena para o Miguel. Não consegui ignorar, e dei um jeito de ler, sem ele saber. Nada de muito sensacional, exceto o cabeçalho: “Estimado Miguelzinho”.
Na época fazia sucesso a música italiana Il Mondo. Não me aguentei, e fiz uma paródia com a seguinte letra:
“Imundo
Ah, se tudo isto é por falta de carinho,
Que sente agora o Estimado Miguelzinho,
Que em protesto empesteia os caminhos.
Gira o mundo gira, sem tomar um parco banho,
Sem lavar suas orelhas,
Com um cheiro meio estranho,
Sem saber se vale a pena,
Sofrer tanto por Helena.
Imundo, não toma banho há uma semana,
Que cheiro estranho ele emana,
Até parece um gambá”.

Miguel era bom astral. Até achou graça, como todos da casa. Não gostou de eu ter lido a carta da Helena. E menos ainda quando, de retorno nas férias seguintes a Rio Casca, cantei esta música para ela. Coisa de irmãos, que apesar destas estocadas, se amavam muito.

Doni

Tio Doni tinha fama de ser meio louco. Melhor seria dizer voluntarioso. Tinha uma teoria interessante sobre estradas esburacadas, como eram todas do interior naquela época: para superar os buracos a melhor estratégia era acelerar o carro, que voaria sobre eles. Obviamente os amortecedores de seus carros deviam ser trocados com muita frequência.

Por outro lado, tia Conceição achava um absurdo os carros terem terceira e quarta marchas. “Para que precisa?”, perguntava. “A primeira e a segunda bastavam” em sua teoria. 

Chico Carreiro

Vovô tinha um empregado chegado à uma cachaça: o Chico Carreiro.
Contam que uma vez tio Zé retornava da cidade de noite com vovô, que por algum motivo estava mal-humorado. Quase chegando, ali pela casa onde depois moraram a tia Conceição e o tio Doni, encontram com o Chico Carreiro bêbado, cambaleando pela estrada.
Pararam o carro para não atropelar o Chico. Este olhava o carro com surpresa e certo medo, e falava alto com voz embargada pelo álcool:
-“ Que bicho feio, sô! Óia como ronca! E esses óios saindo fogo”.
De um lado vovô furioso, sem poder passar; de outro tio Zé prendendo o riso com a cena, com receio do mal humor do pai se virar contra ele.

Fuso horário

Algo que tinha que me acostumar na fazenda era o fuso horário, em época que não se falava em horário de verão.
Lá, o café era servido a partir das 5:00 hs, o almoço às 10:00 hs, o café da tarde às 14:00 e o jantar às 17:00 hs. Vovô e vovô costumavam dormir cedo, lá pelas 20:00 hs.
Nós ficávamos conversando, ouvindo os causos dos adultos, jogando cartas. Às vezes fazíamos teatro, na cozinha. A peça era inventada na hora, e representávamos para nós mesmos e, às vezes, com a presença rápida dos adultos.
Em outros momentos, com maior agitação, a brincadeira era galo de guerra. Um primo subia nas costas do outro e a parelha lutava com outra, com objetivo de derrubar o carona. Numa delas, fui derrubado, e minha cabeça bateu na quina do banco de madeira. Foi sanguera para todo lado, para desespero de minha mâe, obrigada a aparar o cabelo e fazer o curativo.

Fazenda sustentável

Me lembro que a fazenda era o que hoje se diria uma fazenda sustentável. Me parece que tudo o que comíamos, com exceção do sal, era produzido lá, pela natureza, e processado pela minha avó e suas muitas empregadas, esposas dos também muitos empregados da fazenda.
Leite, queijo, manteiga, ovos, açúcar (de rapadura), bolo de milho (cubu), inhame, couve, tomate, pepino, tudo vinha da fazenda.
Proteínas eram carne de porco e de galinha. Frutas havia muitas: mangas de todo tipo, eugênia (jambo), goiaba, jabuticaba, laranja, limão, etc.
Era economia e necessidade: na época de chuvas ficávamos isolados da cidade pelas estradas embarradas.
A carne de porco era muito salgada. A geladeira era à querosene, e não gelava bem, ainda mais que sendo pequena, tinham que colocar um porco inteiro dentro após abate. O sal entrava como conservante.
Ainda me lembro do cheiro enjoativo que tinha, que impregnava a água gelada que bebíamos. Quando chegava, levava uns tantos dias para me habituar àquela comida salgada. Por isto nossos avós faleceram de doenças derivadas de excesso de sal na dieta. Mas não havia como manter a carne conservada sem este recurso.

Despertador

Para mim e o Miguel, meu irmão, a fazenda era o paraíso. Íamos para lá nas férias de verão e também das de inverno. Na época, final dos anos 50 e início dos 60, não era fácil chegar. A atual BR 116, na época Rio-Bahia, não tinha asfalto na maior parte. A viagem levava dois dias, sem possibilidade de se prever a chegada. Mal tempo, pneu furado, carro fervendo, eram as ocorrências aleatórias que nos atrasavam. Saindo do Rio cedo, dormíamos em Muriaé, Realeza, ou Abre Campo. Na época de chuvas, no verão, a partir de Abre Campo, a atual BR 362, que na época era uma estradinha de interior, ficava um atoleiro só. Vovô mandava um carro de boi para nos esperar por lá. A última fase da viagem levava quase um dia inteiro, deitados nos colchões de palha que forravam o carro.
Todos estes perrengues não nos desanimavam. Talvez fizessem parte do fascínio que contagiava os meninos da Tijuca – eu e meu irmão – nas viagens pelo interior da terra de nossos pais, e na expectativa de encontrar com nossos primos.

Na noite que precedia a viagem eu não conseguia dormir de tão excitado. Uma vez, de madrugada, vendo que o tempo não passava no relógio na cabeceira da cama de meus pais, resolvi antecipar o horário marcado para eles acordarem. De 7:00 passei o alarme para 6:45 hs. Voltei para cama, sem conseguir dormir, e retornei ao despertador, na ponta dos pés, marcando 6:30 hs. E assim, de pouquinho em pouquinho, nem imagino que horário o despertador tocou. Pela fúria do meu pai, só sei que foi muito cedo.