Nós, meninos de cidade que viravam meninos de fazenda
durante as férias, tínhamos a disposição uma verdadeira Disneylândia na roça.
De manhã cedo era hora de ver a lida com as vacas de leite.
Ao passarmos na cozinha bem cedo, enchíamos uma caneca de cerca de meio litro
com café até a borda e nos dirigíamos ao curral. Ali nos esperava o Bastião,
filho do Chico Carreiro, que se encarregava da ordenha. Esvaziávamos cerca de 2
dedos de café na xícara do Bastião e enchíamos com leite tirado diretamente das
tetas das vacas.
Quem só bebe leite pasteurizado não imagina que o leite
varia com cada vaca e que existem algumas que produzem leite mais gostoso que
outras. Creio que geralmente eram as que produziam leite com maior teor de
gordura, pois algumas vacas com cruza Jersey eram nossas preferidas. Também não
dava para beber leite de vaca recém parida, pois tinha sangue, ficava meio rosado.
Selecionávamos as vacas com leite mais gostoso e bebíamos
inicialmente um café com leite quase preto, espumante, grosso, até a metade da
caneca, para encher outra vez de leite. O café com leite ia sendo branqueado
até que na última caneca havia praticamente apenas leite. Acredito que a cada
manhã tomávamos quase dois litros de leite.
Aquele leite gordo, para quem não estava acostumado, causava
alguma diarreia nos primeiros dias, mas depois o organismo se acostumava.
Após as vacas serem ordenhadas pelo Bastião o leite passava
na desnatadeira, sendo o creme separado. Ele ia para nossa avó fazer manteiga e
queijo. O soro, que hoje é vendido nas academias como “whey protein”, era destinado
à alimentação dos porcos! Que, por sinal, engordavam rapidamente!
Eles ficavam presos no chiqueiro. Havia um portão que
separava os porcos do ambiente onde estavam os cochos, uma fila comprida deles.
O Bastião jogava um farelo de milho e de outras coisas, e entornava o soro no
cocho. Nós fazíamos a mistura com ele, muitas vezes com os pés descalços.
A melhor hora era quando os porcos, já agitadíssimos com a
expectativa de alimentação, fazendo uma grande barulhada, eram soltos. Vinham
com tanta fome que tínhamos de nos afastar para não sermos atropelados.
A partir daí a diversão era dar pontapé nos mais gordos, ou
mais desesperados para comer. Maldade de meninos. Como geralmente estávamos
descalços, não os machucávamos. E nenhum, nunca, se virou para enfrentar o
menino chato que ficava lhe dando pontapé.
Ao andar com pés descalços no chiqueiro, era inevitável que
todos pegássemos bicho-de-pé. Era uma coceira gostosa no início, mas a
retirada, com agulha e álcool, nem sempre era coisa muito agradável.
Divertido também era dia de dar banho nas vacas. Elas
entravam em um brete que terminava no banheiro com carrapaticida. Era com grande
estardalhaço que se jogavam na água, para nossa diversão. Nós ficávamos em
volta, tocando elas, na base de pauladas, que suponho também não as
machucavam. Nunca nenhuma delas reclamou.
Um grande escorregador existia no terreiro onde o café
ficava para secar: íamos até o topo, sentávamos no tapete formado pelos grãos
que secavam, e era só empurrar o corpo para frente, que a gravidade fazia seu
papel.
Depois do almoço íamos para o curral de bezerros novos. Eles
haviam nascido recentemente e ficavam separados dos demais. Muitos ainda
andavam com dificuldade. Ideal para serem amansados.
Cada um de nós tinha o “seu” bezerro. E passávamos horas
fazendo carinho. Com o tempo, estavam acostumados conosco, e não mais fugiam ao
nosso contato. Alguns até brincavam conosco como eles fazem entre si: dando
cabeçadas, em lutas fingidas, que eram grande atração para nós.
Uma das bezerras que amansei era filha de uma vaca
registrada, pura, da raça Gir. Chamava-se Sombrinha. Quando cresceu manteve-se
muito mansa, facilitando a lida. Inclusive, era possível se montar nela, como
se fosse uma égua.
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